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@padreluiserlin

MEMÓRIAS DE NOSSA SENHORA

Às vezes fecho os olhos e ainda sinto o ar quieto daquele dia, quando a luz tocou minha
pele e entendi que nada seria igual. A anunciação chegou como um sopro, suave e
firme, dizendo mais do que minhas palavras podiam alcançar. Eu não compreendia tudo,
mas aceitei, porque havia uma paz que não era deste mundo. Ainda posso ouvir meu
próprio coração, acelerado e humilde, enquanto eu dizia sim.
Depois vieram os dias simples, aqueles que poucos registram, mas que guardo como se
fossem tesouros escondidos. O primeiro movimento em meu ventre, tão leve que pensei
ser apenas ilusão; mas não, era ele anunciando que já estava ali, habitando-me com uma
presença que era mais do que física. Lembro-me de um entardecer, quando senti um
chute mais forte e ri sozinha. José me olhou sem entender, e eu lhe disse que o menino
parecia ter pressa de conhecer o mundo. José apenas sorriu, aquele sorriso de encanto
tímido que ele descobriu depois que soube que seria pai.
O nascimento… ainda hoje sinto o cheiro da palha. Nada era adequado, nada era digno,
mas tudo era exatamente como devia ser. Eu o segurei pela primeira vez, tão pequeno,
tão frágil, e ainda assim, eu sabia: naquele corpo de recém-nascido morava uma
vastidão que eu jamais poderia medir. Ele chorou alto, e eu sorri. Era vida. Era
promessa. Era Deus, e eu tinha braços para sustentá-lo.
As horas cotidianas foram as que mais marcaram meu coração. Ele me segurando o
dedo com toda a força que um bebê pode ter. Ele aprendendo a caminhar, tropeçando
mais vezes do que aceitava admitir, até que um dia correu para longe de mim no pátio e,
ao perceber, voltou desesperado, como se tivesse ido longe demais. Eu o abracei, e ele
murmurou algo como “Eu achei que te tinha perdido”. Era pequeno, e já temia perder o
amor. Quem diria que um dia seria eu quem quase o perderia?
Recordo também dos dias em que o via entre os outros meninos, sempre atento, sempre
gentil, mas com aquele olhar que parecia captar mais do que a infância costuma
permitir. Às vezes me perguntava se ele sentia o peso antes mesmo de conhecê-lo por
completo. Outras vezes, víamo-lo rir com uma alegria tão larga que dissipava qualquer
inquietação.
E então ele cresceu. Cresceu depressa, como todos os filhos crescem, mesmo quando as
mães insistem em segurá-los com os olhos. Quando começou sua missão, eu o
acompanhava em silêncio. Sabia que o mundo precisava dele mais do que eu. Mas ser
mãe é aprender a abrir a mão mesmo quando o coração quer fechar-se.
A crucificação… essa memória não quero, mas não posso apagar. O peso daquilo não
estava apenas na madeira. Quando o vi, ferido, elevado, tão humano e tão divino, algo
dentro de mim se partiu, e nunca voltou ao lugar de antes. Eu não gritei; meu silêncio
era o meu grito. E mesmo assim, no fundo do meu ser, uma voz dizia que tudo aquilo
não era fim. Ainda assim doeu como fim.
E então, a ressurreição. Não foi surpresa. Foi confirmação. Eu sempre soube, mas saber
não diminui a maravilha. Quando me trouxe a paz de novo, senti que todo o caminho,

do anjo ao túmulo vazio, tinha sido tecido por mãos que enxergam além do tempo. Eu o
vi vivo, e naquele instante cada lágrima derramada encontrou sentido.
Agora, quando me recordo, a saudade não é só dor. É também gratidão. Gratidão pelas
horas silenciosas que só nós dois compartilhamos, pelos passos hesitantes, pelos risos
que se perderam no vento, pela missão que ele cumpriu mesmo quando me custou o
coração. Eu o carreguei no colo, e um dia ele carregou o mundo.
E quando fecho os olhos, ainda sinto seu primeiro movimento dentro de mim, como
uma promessa que nunca se esgota. E sorrio. Porque ele vive. E, de algum modo, eu
vivo nele também.

Pe. Luís Erlin, CMF.