O mês de agosto, tradicionalmente celebrado pela Igreja Católica no Brasil como Mês
Vocacional, constitui um tempo privilegiado para refletir sobre o chamado que Deus
dirige a cada pessoa. Mais do que uma simples campanha pastoral, esse período recorda
que toda a vida cristã é resposta a uma vocação. Pelo Batismo, todos os fiéis são
chamados à santidade e à missão (cf. Lumen Gentium, n. 39-42). Entretanto, esse
chamado universal concretiza-se em diferentes estados de vida, que manifestam a
riqueza da ação do Espírito Santo na Igreja.
A palavra "vocação" deriva do latim vocare, que significa "chamar". Na perspectiva
bíblica, Deus é aquele que chama e estabelece uma aliança com seu povo. Desde
Abraão (Gn 12,1-4), passando por Moisés (Ex 3,1-12), pelos profetas (Is 6,1-8; Jr 1,4-
10) e chegando ao chamado dos apóstolos (Mc 1,16-20), percebe-se que a iniciativa
pertence sempre ao Senhor, que convida cada pessoa a participar de sua obra de
salvação.
Jesus confirma essa realidade ao afirmar: "Não fostes vós que me escolhestes, mas fui
eu que vos escolhi e vos designei para irdes e produzirdes fruto" (Jo 15,16). Toda
vocação, portanto, nasce do amor gratuito de Deus e exige uma resposta livre, generosa
e perseverante.
A vocação universal à santidade
O Concílio Vaticano II recuperou com vigor a doutrina da vocação universal à
santidade. A Constituição Dogmática Lumen Gentium ensina:
"Todos os fiéis cristãos, de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida
cristã e à perfeição da caridade" (Lumen Gentium, n. 40).
Assim, antes de existir uma vocação específica, existe o chamado comum à comunhão
com Deus. Toda vocação particular encontra seu sentido nessa vocação fundamental,
que consiste em viver como discípulo de Cristo e testemunha do Evangelho.
O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, recorda que a
santidade não é privilégio de poucos, mas caminho acessível a todos:
"O Senhor pede tudo e, em troca, oferece a verdadeira vida, a felicidade para a qual
fomos criados" (Gaudete et Exsultate, n. 1).
A vocação ao ministério ordenado
Entre as vocações específicas destaca-se a vocação sacerdotal e diaconal. Pelo
sacramento da Ordem, bispos, presbíteros e diáconos tornam-se servidores do povo de
Deus, participando do ministério de Cristo, Bom Pastor.
São Paulo recorda que esse ministério é dom de Deus:
"Como poderão acreditar sem ter ouvido falar dele? E como ouvirão, se não houver
quem pregue?" (Rm 10,14).
O Decreto Presbyterorum Ordinis afirma que os presbíteros são configurados a Cristo
Cabeça e Pastor para anunciar a Palavra, celebrar os sacramentos e conduzir o povo de
Deus na caridade (cf. Presbyterorum Ordinis, n. 4-6).
O Diretório para o Ministério e a Vida dos Presbíteros acrescenta que o sacerdote é
chamado a viver uma espiritualidade de comunhão, configurando sua existência ao
amor oblativo de Cristo.
Os diáconos, por sua vez, recebem a ordenação para o serviço da Palavra, da Liturgia e
da Caridade, tornando visível Cristo Servo (cf. Lumen Gentium, n. 29).
A vocação matrimonial
O matrimônio cristão constitui verdadeira vocação e caminho de santidade. O amor
entre os esposos torna-se sinal da união entre Cristo e sua Igreja (Ef 5,25-32).
A Constituição Pastoral Gaudium et Spes afirma que:
"Os esposos cristãos significam e participam do mistério da unidade e do amor fecundo
entre Cristo e a Igreja" (Gaudium et Spes, n. 48).
São João Paulo II, na Exortação Apostólica Familiaris Consortio, destaca que a família
é a "Igreja doméstica", lugar privilegiado da transmissão da fé, da educação dos filhos e
da vivência do Evangelho.
O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Amoris Laetitia, reforça que o matrimônio
não é um ideal abstrato, mas uma vocação concreta, sustentada diariamente pela graça
de Deus e pelo exercício do amor, do perdão e da fidelidade.
A missão da família ultrapassa seus próprios limites, tornando-se espaço de
evangelização, acolhida e promoção da dignidade humana.
A vocação à vida consagrada
A vida religiosa consagrada manifesta de modo particular o seguimento radical de
Cristo mediante a profissão dos conselhos evangélicos de pobreza, castidade e
obediência.
O Decreto Perfectae Caritatis ensina que os religiosos testemunham, de forma
profética, os bens futuros do Reino de Deus.
São Paulo descreve essa entrega ao afirmar:
"Quem não é casado preocupa-se com as coisas do Senhor, procurando agradar ao
Senhor" (1Cor 7,32).
A Exortação Apostólica Vita Consecrata, de São João Paulo II, apresenta a vida
consagrada como memória viva do modo de viver de Jesus, tornando presente na Igreja
o testemunho da total disponibilidade ao Reino.
Por meio da contemplação, da missão, da educação, da saúde e das inúmeras formas de
serviço, os consagrados enriquecem a vida da Igreja e testemunham que Deus é o bem
supremo.
A vocação dos leigos
Os fiéis leigos representam a maioria do povo de Deus e possuem missão insubstituível
na evangelização do mundo.
O Concílio Vaticano II afirma:
"A índole secular é própria e peculiar dos leigos" (Lumen Gentium, n. 31).
Isso significa que sua missão acontece principalmente nas realidades temporais: família,
trabalho, política, cultura, educação, economia e comunicação social.
Jesus utiliza a imagem do sal e da luz:
"Vós sois o sal da terra... Vós sois a luz do mundo" (Mt 5,13-16).
A Exortação Apostólica Christifideles Laici, de São João Paulo II, destaca que os leigos
são chamados a transformar as estruturas da sociedade segundo os valores do
Evangelho, promovendo a justiça, a paz e a dignidade da pessoa humana.
A pastoral vocacional: responsabilidade de toda a
Igreja
As vocações não surgem por acaso. Elas florescem em comunidades que rezam,
testemunham e acompanham.
Jesus recomenda:
"A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da messe
que envie trabalhadores para sua messe" (Mt 9,37-38).
O Documento de Aparecida recorda que toda a comunidade cristã deve assumir a
cultura vocacional, despertando crianças, jovens e adultos para a escuta da voz de Deus
(cf. Documento de Aparecida, n. 314-315).
O Papa Francisco, em diversas Mensagens para o Dia Mundial de Oração pelas
Vocações, insiste que toda vocação nasce da amizade com Cristo, cresce na comunidade
e amadurece no serviço aos irmãos.
Conclusão
Celebrar o Mês Vocacional é renovar a consciência de que Deus continua chamando
homens e mulheres para diversas formas de serviço na Igreja e no mundo. Não existem
vocações mais importantes ou menos importantes; todas encontram sua origem no amor
de Deus e convergem para a edificação do Corpo de Cristo (cf. 1Cor 12,4-27).
Cada vocação — seja ao matrimônio, ao ministério ordenado, à vida consagrada ou ao
apostolado leigo — manifesta um aspecto da beleza da Igreja e da multiforme graça de
Deus. Quando cada batizado responde com fidelidade ao chamado recebido, toda a
comunidade cresce em santidade, unidade e missão.
Que o exemplo da Virgem Maria, mulher do "sim" perfeito (Lc 1,38), inspire cada
cristão a discernir e viver sua vocação com alegria, confiança e generosidade, tornando-
se sinal vivo do amor de Cristo para o mundo.
Pe. Luís Erlin, CMF.